É noite de quinta-feira em Moscou; o Linkin Park está tocando na estréia de Transformers: Dark of the Moon em uma extremidade da Red Square, na sombra do Kremlin. A parte da segurança consiste em linhas de policiais militares. De repente, os telões começam a mostrar explosões nucleares e o rosto gigante e incomodado de J. Robert Oppenheimer – o físico que trabalhou na bomba atômica e depois agonizou em cima do que ele havia criado. Enquanto o ouvimos entoar, “Eu me tornei a morte, o destruidor de mundos”, milhares de fãs russos de repente levantam cartazes mostrando Wisdom, Justice e Love.

O gesto – em um evento feito a apenas metros de distância da sede de poder da guerra fria para as sucessivas gerações – teve bastante poder porque não foi criado pela banda, ou pela sua gravadora, ou pela empresa de cinema, mas pelos fãs em si, viralmente através de quadros de mensagens.



“Isso nos empurrou totalmente”, diz o vocalista Chester Bennington. “Eu tive esse mesmo pensamento, de que ali estava uma banda americana tocando músicas carregadas politica e emocionalmente, próximo ao Kremlin. Eu podia sentir o peso dos anos crescendo e sendo dito que este era um lugar fora dos limites. Assim, o fato das crianças se expressarem daquela maneira, foi realmente comovente; algo que nunca vamos esquecer, porque foi inacreditável”.

Essa é uma conversa que você esperaria ter com o U2, talvez, não com uma banda cuja venda de 20 milhões no seu álbum de estréia, Hybrid Theory de 2000, os tornou reis comerciais do nu-metal, um gênero que é sinônimo de gritos raivosos e guitarras muito altas. Mas o Linkin Park de hoje dirigi carros híbridos, compensa suas emissões de carbono e seguiu um rumo novo, não muito diferente do qual o Radiohead tomou com o Kid A. Um processo que eles descrevem como “destruir e reconstruir a banda”, levou à produção do ano passado de Rick Rubin, A Thousand Suns, um álbum conceitual sobre os medos humanos, incluindo a guerra nuclear, com músicas eletrônicas e estranhamente belas, como Waiting for the End.

“Quando você sai na porta com um disco como Hybrid Theory, de um ponto de vista empresarial é muita burrice não continuar a fazer isso”, diz Bennington, todo sorridente, seus grandes brincos pretos e braços tatuados sendo os únicos sinais visuais de seu passado nu-metal. “Mas nós não somos um fabricante. Somos artistas, e voltamos filosoficamente para onde estávamos escrevendo música antes de vendermos um álbum. Quando estávamos animados sobre uma música, não porque…”



O Rapper e multi-instrumentista, Mike Shinoda, completa: “… Ela vai ser um sucesso!”

Uma semana depois do show em Moscou, o par – cujo ato em dupla alimenta a banda com sua energia no palco – está relaxando no hotel Mandarin Oriental em Londres, onde a realeza do rock costuma ficar quando está na cidade. Mais amigáveis e engraçados do que se pode imaginar pela angústia de sua música, eles são bem diferentes um do outro, tanto em pessoa quanto no palco: Shinoda, seco e pensativo, Bennington, elétrico e aberto. Mas assim como nos shows, eles ativam um ao outro incessantemente. A reinvenção do Linkin foi muito pessoal para ambos.

Shinoda é japonês-americano. Durante a segunda guerra mundial, seu avós nascidos no Japão, que emigraram para os EUA, estavam entre os 110 mil americanos de origem japonesa concentrados em “campos de guerra”. Quando a banda estava gravando o A Thousand Suns, Rubin sugeriu que Shinoda escrevesse letras através do fluxo de consciência e ele encontrou anos de memórias de família enterrados, que de repente vieram à tona.

“Porque não foi apenas a guerra”, diz ele. “Foi o medo na vizinhança deles e tudo mais, por anos. Meu pai se lembra de estar na escola com meu tio e o professor dizer de forma absoluta para a turma que os japoneses eram cidadãos de segunda classe e que não eram confiáveis. Antes da guerra, minha família tinha uma mercearia e uma loja de barbear, mas depois da concentração elas foram destruídos e eles tiveram que recomeçar como catadores de morango. Mas eles não falarão sobre isso. Eu queria contar essas histórias porque ninguém mais o fará”.

O passado de Bennington é, Shinoda salienta rapidamente, “mais extremo”. O divórcio de seus pais quando ele tinha 11 anos o levou a começar a fumar maconha, o que levou à cocaína e metanfetamina. Em algumas entrevistas anteriores ele fez alusão ao abuso sexual que sofreu de um amigo mais velho do sexo masculino.



“Quando eu era jovem, apanhar e ser estuprado não era divertido”, diz ele de repente e desarmante. “Ninguém quer que isso aconteça consigo e, honestamente, eu não me lembro de quando começou. Mas cerca de quatro anos atrás, eu fui visitar a minha mãe e eu vi uma foto minha e me lembro muito bem quando aquela foto foi tirada. De repente, porque eu tenho filhos, eu olhei para ela e pensei: ‘Wow, eu era assim’. E então me lembrei. Oh meu Deus. Lembro-me das coisas acontecendo comigo naquela fase e até mesmo pensar sobre isso agora me faz ter vontade de chorar. Oh meu Deus, isso estava acontecendo comigo e eu era tão pequeno, foi muito mais cedo do que eu lembrava. Meu Deus, não me admira que eu tenha me tornado um viciado em drogas. Não me admira eu tenha ficado completamente insano por um tempo”.

O trauma de Bennington disparou o Hybrid Theory e o hit seguinte deles de 2003, Meteora. O sucesso que eles conseguiram foi, para Bennington, “como algo que você lê em um livro. Isso não acontece realmente. Eu segui o meu instinto porque todo mundo estava ferrado e eu não gostava das coisas feitas pelos outros, portanto eu faria minhas próprias coisas”.

Embora Bennington tenha andado ao redor da música por um tempo antes de se juntar ao Linkin Park, quando o sucesso chegou, foi bem rápido. Eles perceberam que as coisas estavam mudando quando a dupla dirigia até a casa do pai de Bennington e ouviu a música deles música no rádio. “Foi a experiência mais surreal que já tive”, lembra Shinoda, sorrindo por causa das memórias. “Havia várias rádios e estávamos em cada uma delas. Ficamos tipo, ‘puta merda!’. Isso foi tão legal”.

Bennington passou, de dormir na parte de trás de um velho Toyota, para a frente do que era então o álbum de estréia mais vendido do século 21. Fãs berravam músicas na frente de sua casa. Uma mulher causou um acidente de carro depois de avistá-lo na rua. Bennington não achou a mudança para fortuna fácil e ele caiu de volta em um sério abuso de drogas.

“Infelizmente, minha ex-mulher [Samantha, com quem se casou quando eles eram tão pobres que não podiam pagar uma aliança de casamento] e eu fomos muito tóxicos um para o outro, muito jovens para casar”, diz ele. “Nós tínhamos personalidades voláteis e mesmo pensando que nos ajudávamos, não fomos bons para nós mesmos e isso trouxe outros sentimentos”.



“Nas turnês que fizemos no começo, todas as bandas que participaram conosco ou bebiam ou usavam drogas”, diz Shinoda. “Eu não lembro de nenhuma pessoa que ficava sóbria. Então você pega alguém que já tem um desejo ardente por drogas e…”



“Eu festejava com todos”, diz Bennington. Isso não ajudou a criar laços com o resto da banda – que estava mais para maconha e álcool e não fazia ideia de que seu homem de frente estaria tropeçando no ônibus de turnê. Ele diz que sabia que eles falariam: “Porra cara. Olhe o que estamos conseguindo aqui. Que porra você está fazendo?”.

Não era apenas a banda que estava escondida no escuro. No início o Linkin era notoriamente uma unidade fechada. Os jornalistas voltariam de uma entrevista com eles com contos de celulares confiscados e respostas monossilábicas.



“Nós conversamos sobre isso recentemente e percebemos que éramos super defensivos”, diz Shinoda. A rapidez de seu sucesso levou a suspeitas de que eles eram ‘fabricados’ e, para Bennington, a acusação de que ele de alguma forma “não era real” machucou profundamente.

“Eu pensava tipo, ‘foda-se, você não me conhece’”, ele cospe, acerta um soco na sua outra mão. “E, pessoalmente, eu gostaria de pular a mesa e matar você. ‘Como você se atreve a questionar sobre o que eu estou cantando?’. Eventualmente, eu comecei a pensar: ‘Tudo bem, você quer saber? É daqui que eu venho!’, e eu disse a um jornalista coisas que eu nunca tinha dito a ninguém. E meu pai – um policial – me chama e diz: ‘Que diabos você quer dizer? Isso aconteceu com você quando você era criança? Quem fez isso?’ E eu pensava: ‘O que eu fiz?’”.



Eventualmente, Bennington revelou a identidade de seu agressor a seu pai. Ele percebeu que seu agressor, por sua vez, tinha sido uma vítima e não quis persegui-lo. “Eu não precisava de vingança. Eu percebi…”

Shinoda calmamente termina a frase: “Que isso pode acabar com você”.

Isso acabou, mas só depois de muita terapia. A metamorfose da banda começou em 2007, quando eles formaram parceria com Rubin para a tentativa experimental, Minutes to Midnight, depois de Bennington ter ajeitado sua vida. “Eu me tornei uma pessoa que não era eu”, ele suspira. “Esse sou eu. Eu sou bom, um cara amigável que sempre esteve preso por trás deste monstro que era apenas um garoto bastante ferido”.



Bennington se divorciou em 2005 – sua ex-esposa, a mãe de seu primeiro filho, desde então se tornou uma “ótima amiga e uma ótima mãe e eu lamento cada coisa ruim que eu já disse sobre ela na imprensa”. Em 31 de dezembro de 2005 ele casou-se com Talinda, uma professora e ex-modelo. A relação o mudou e com a terapia, a reabilitação e fé “eu desbloqueei todas estas coisas que carregava durante todos esses anos”. Quando o Linkin voltou ao estúdio, ele descobriu que seu estilo vocal tinha mudado do rugido antigo para algo menos agressivo.



“Eu percebi que eu não tinha mais aquela besta interior”, diz ele. “Eu não queria gritar”.



A banda tem transformado inteiramente seu modo operante. “Se tivéssemos feito mais um álbum como os dois primeiros, teríamos feito o mesmo álbum até que nos acabássemos”, diz Shinoda, revelando que a banda também reacendeu – e em alguns casos começou – amizades interiores. “Mas nós percebemos que não tínhamos nada a provar para ninguém. O Linkin Park pode ser tão aventureiro, liricamente ou sonoramente, quanto quisermos”.

“A música pode ser política de um jeito que eu nunca senti antes – tocar certas canções na Red Square ou em Tel Aviv pôde realmente afetar algumas pessoas”, diz Bennington.



Ele ainda encontra problemas – em 2008, uma assediadora chamada Devon Townsend foi presa após invadir sua vida ciberneticamente, conseguindo acesso a todas suas mensagens de voz e e-mails e roubando centenas de fotos de seus filhos. “Não é divertido colocar alguém na prisão”, diz ele. “Noventa e nove por cento dos fãs são ótimos. Somos famosos, mas não somos celebridades. Eu posso ir ao supermercado e ao correio. As pessoas dizem: ‘Vocês assinaram contrato para isso’. Não, na verdade, nós assinamos para fazer música, não para expor as nossas famílias a pessoas loucas. Mas agora é tudo sobre música. E nós estamos apenas começando”.